Valéria Soares e o marido, Amilton Soares, buscaram sustentabilidade para construir a casa em que vão morar
A necessidade cada vez maior de se preservarem os recursos naturais e minimizar os impactos ambientais tem levado a sociedade a pensar soluções sustentáveis em todos os segmentos econômicos. Tanto é assim que na construção civil surgiu o conceito de construções verdes, que têm como principais vertentes as reduções no gasto de energia e de  água. A questão é: essa alternativa é economicamente viável?

Estudos ligados ao ciclo de vida dos materiais, envolvendo a preocupação com a durabilidade, origem, destinação e gestão de resíduos, também são o foco das construções verdes, segundo a engenheira civil, urbanista e diretora geral da EcoConstruct Brazil, Cristiane Silveira de Lacerda. “Além dos cuidados com todos os públicos de interesse do empreendimento, como a comunidade do entorno, cujas preocupações envolvem a mitigação da poluição do ar, sonora, visual, de trânsito, luminosa e outras”, conta.

Em relação à viabilidade econômica, Cristiane Lacerda diz que, a curto prazo, é mais alto. Entretanto, conforme a engenheira, o grande custo do edifício ocorre não durante a fase de projeto ou de construção, mas sim na operação. “Dessa forma, é inconcebível projetarmos e construirmos empreendimentos obsoletos, que serão uma herança ruim para os usuários e a cidade, que terão que conviver por 40 ou 50 anos com uma criação que não enobrece quem a concebeu nem quem dela usufrui.”

Essa conscientização faz parte, inclusive, de projetos governamentais, que já estão adotando alternativas sustentáveis. “Quanto menos recursos temos, menos podemos desperdiçar. Daí o incentivo do governo federal nos programas Minha casa, minha vida para a instalação dos coletores solares”, exemplifica Cristiane Lacerda.

EDUCAÇÃO Para o especialista em construção verde e diretor de Iniciativas Ambientais e Desenvolvimento de Produto da Forbo Flooring/América do Norte, Tim Cole, apesar de opiniões contrárias, para que a ideia das construções verdes seja difundida é preciso que essa cultura seja disseminada. ”Alguns dirão que não, mas minha opinião é que tudo é uma questão de educação. Se alguém não conhece nada sobre construções verdes, então precisamos educar as comunidades do mundo todo”, acredita.

A questão também passa pela definição do que é viável. Mesmo assim, Tim Cole afirma que construções verdes são para todos. “Se alguém está morando em uma caixa de papelão ou em uma barraca, o quão viável será a construção verde para ele, ainda que possa entender disso melhor que muitos? Temos que compreender que a sustentabilidade não se refere apenas às edificações. Diz respeito ao cuidado com o meio ambiente, criando benefícios econômicos e equidade social.”

Com esse pensamento, a engenheira química Valéria Soares Amorim Pereira e seu marido resolveram construir a casa em que vão morar, no Bairro Prado, Região Oeste de Belo Horizonte. “Decidimos que queríamos uma construção sustentável, avaliando o custo/benefício”, conta. Assim, eles optaram pelos sistemas de aquecimento solar e de recuperação da água da chuva para alguns usos, como regar plantas.

Uma solução simples que também está sendo projetada é o uso de vidro de forma a aproveitar ao máximo a luz natural. “Atuo na área ambiental e essa consciência já vem de muito tempo. Nem sei se vai dar tanto certo a utilização dos sistemas, mas quero fazer a minha parte”, diz Valéria Pereira.

Diretora da EcoConstruct Brazil, Cristiane Lacerda defende incentivos fiscais para fortalecer a indústria verde
MUDANÇA POSSÍVEL
Alteração da mentalidade em prol das construções verdes significa um bom negócio  

Para que a ideia de construções verdes seja efetivamente disseminada, é preciso que sejam dados incentivos fiscais, obras públicas sustentáveis, vontade política e posicionamento estratégico para fortalecer a indústria verde. Essa é a opinião da diretora geral da EcoConstruct Brazil, Cristiane Lacerda. Além disso, ela aposta na vontade e na coragem para começar a mudança.

Com essa mentalidade, a RKM Engenharia aposta em soluções verdes, mesmo reconhecendo que algumas tecnologias que beneficiam o meio ambiente ainda tenham custo elevado, conforme a diretora Comercial e de Relacionamento, Adriana Bordalo. “O investimento é importante porque, além de reduzir os custos de manutenção dos empreendimentos, a compra e utilização dessas tecnologias fomentam uma economia que preza pela reutilização dos recursos naturais e aproveitamento de materiais.”

O desenvolvimento dessa mentalidade traz ganhos em todas as áreas, como afirma Cristiane Lacerda. “Porque sustentabilidade envolve qualidade total, fazer certo da primeira vez, desperdício zero e durabilidade, o que traz economia para o empresário e satisfação para o cliente.”

A adoção de práticas que caracterizam as construções como verdes também leva as empresas a conquistarem certificações. “Não é possível um empreendimento sustentável sem cuidados ambientais e com as pessoas, o que requer treinamento, mudança de cultura, e floresce em admiração pela empresa, prestígio para a marca e retenção dos colaboradores”, ressalta Cristiane Lacerda.

De acordo com a engenheira, a maior velocidade nas vendas comprova que investir em sustentabilidade é um bom negócio. “Um empresário da Bahia me disse que, com a Certificação Aqua, ele estava vendendo apartamentos como quem vende pão quente na padaria. Clientes corporativos de alto nível também desejam se estabelecer em edifícios verdes, que vai ao encontro da estratégia corporativa, sensibilização dos funcionários e prestígio para a instituição.”

Adriana observa que, no segmento de alto luxo, a sustentabilidade é vista como um diferencial do produto, sendo percebida pelos consumidores como um benefício a mais. “Seja ele pessoal, no respeito ao meio ambiente ou financeiro, com a redução do valor do condomínio. Mas ainda não pode ser considerada um diferencial de vendas”, observa.

NA PRÁTICA
 Para o especialista em construção verde Tim Cole, não há nenhuma dúvida de que isso não só é um bom negócio, mas um investimento no futuro para todas as incorporadoras e construtoras. Outro ponto que deve ser considerado é que a legislação está caminhando no sentido de tornar obrigatória uma série de medidas ligadas à sustentabilidade. “Assim, o mais interessante é que os empresários do setor iniciem essa mudança de forma voluntária e gradual, que trabalhem interna e suavemente a mudança de cultura e a quebra de paradigmas. Isso evitará um desgaste desnecessário, além de uma melhoria na qualidade, produtividade e segurança das obras”, aponta Cristiane.

Esta mentalidade não é válida somente para as grandes incorporadoras. Já é possível perceber iniciativas isoladas que buscam pôr em prática o conceito de construções verdes. Para Cristiane Lacerda, como aumentou significativamente a consciência da população e das empresas em relação à preservação do meio ambiente, a tendência é que haja crescimento da procura por construções verdes. “A sustentabilidade está cada vez mais em destaque na mídia e a mobilização social na ocasião da Rio+20 foi prova disso. Entretanto, o que mais se leva em consideração na hora de investir em sustentabilidade na construção civil não são as questões ambientais, mas, sim, as econômicas. O mais interessante é que, nesse movimento, é possível colhermos ambos os frutos.”

Tim Cole observa que as pessoas querem viver e trabalhar em edifícios verdes saudáveis e com alto desempenho. “Acho que a população, de forma lenta, mas segura, está se tornando cada vez mais consciente da sustentabilidade quando investe seu dinheiro.”

TRES PERGUNTAS PARA: Rozália Magna Íris – Paisagista, gestora ambiental e diretoria da readquação ambiental

Em que consiste a consultoria e os projetos que têm como foco minimizar os impactos ambientais? 

Consistem em conhecer e planejar com antecedência todas as etapas e riscos de agressões ambientais antes de interferirmos numa área. É realizado um estudo sobre todas as espécies existentes no local, tipo de solo, vegetação nativa, o que se pode aproveitar. Só depois disso é que podemos definir quais serão as soluções para viabilizar a execução do projeto.

Esses projetos são viáveis do ponto de vista financeiro? 
São viáveis porque, ao fazermos o estudo da vegetação nativa, é possível um aproveitamento de uma boa parte, integrando-a no final da construção ao projeto paisagístico. Você investe um pouco mais no início da obra e garante a construção de sua casa de forma organizada, ecológica, com ações preventivas que facilitarão a implantação do jardim no fim da construção, principalmente em termos de custo para a formação do mesmo.

O que pode ser feito para que mais construções adotem medidas sustentáveis como essa?
Na verdade, precisamos tomar consciência do nosso papel em relação ao planeta em que vivemos e embora esse seja o assunto da moda, na prática, vejo poucas pessoas interessadas em cumprir o seu papel, em dar a sua contribuição. Continuo buscando a cada dia formas harmoniosas de me relacionar com o planeta de uma maneira que seja boa para todos os seres que nele habitam e venho compartilhando com todos por meio da minha proposta de trabalho.

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Post originalmente publicado em Lugar Certo.

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